sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Sertânia - de Geraldo Sarno (2018)


Quando bandidos tomam a cidade de Sertânia, Antão é ferido, presos e deixado para morrer. Os acontecimentos são projetados por sonhos febris da mente delirante de Antão.

Director: Geraldo Sarno
Elenco: Vertin Moura, Lourinelson Vladmir


Texto do Crítico Matheus Fiore sobre Sertânia (27/01/2020)

A violência como formação mitológica

Geraldo Sarno tem um olhar muito bem definido para a história que quer contar. “Sertânia” se passa na década de 1920, e acompanha a ascensão e declínio de Antão, um bandido que se une a uma gangue de um dos principais malfeitores do sertão nordestino. Os crimes em si, porém, são o que menos importa para Sarno. Seu filme, na verdade, está mais interessado em criar um retrato da região utilizando, para isso, sua mitologia.

Não é preciso dizer que a mitologia, a iconografia e toda a cultura nordestina, em geral, são algumas das mais ricas do Brasil e do mundo. Sarno utiliza isso para criar um filme que bebe bastante do faroeste – até pelas similaridades entre o Velho Oeste e o nordeste brasileiro do início do século XX –, mas que também tem vida própria. O olhar de Sarno é bem diferente do de cineastas populares do faroeste. Se Sergio Leone, por exemplo, aposta sempre na alternância entre planos abertos e close-ups/planos detalhe para criar a tensão dramática e a grandiosidade visual, Sarno escolhe uma câmera “viva”, que acompanha os movimentos de seus personagens a todo momento.

Unindo a câmera que cola em rostos com a fotografia em preto e branco, “Sertânia” ganha um caráter idílico bastante interessante. Ao mesmo tempo em que acompanhamos uma ficção, o sentimento constante ao assistir à obra é de que estamos acessando uma memória. Não uma memória pessoal, mas histórica. É um estudo dessa mitologia nordestina e uma análise de como elementos como a fome e a violência fizeram parte da formação mitológica da região.  não Essa construção, claro, não quer dizer  que Sarno lance um olhar que apresente o nordeste como a região da violência, na verdade é um reflexo de toda a formação da sociedade brasileira, por herança da colonização europeia. Esse lado idílico é bastante beneficiado também pela estrutura do filme, que organiza seus acontecimentos de maneira quase aleatória, puxando cenas da memória e do pensamento de seu protagonista.

Antão é tanto um personagem criado tanto para ser nosso guia no filme, quanto para servir de acesso para essa digressão histórica de Sarno. “Sertânia” ainda lembra o faroeste pela complexidade moral apresentada. Como o próprio autor afirmou em uma entrevista, embora Antão seja protagonista, jamais é retratado como um herói. Há uma busca por um meio-termo entre vilão e anti-herói. “Sertânia” se furta dos caminhos mais simples, que costumam estabelecer heróis e vilões mais claros, para tentar entender, na verdade, como essas figuras tão moralmente complexas conversam com o universo fílmico retratado e representam uma parte da nossa cultura.

A seu favor, “Sertânia” tem a valorização do mito. A construção iconográfica feita por Sarno é exuberante. Cenas dos foras da lei empunhando suas armas em contra-plongée, por exemplo, os fazem parecer gigantes, pilares da formação da sociedade. O mesmo carinho é adotado quando o filme vai para um lado mais onírico devido à presença do mundo espiritual, que conversa diretamente com a religiosidade da cultura nordestina. Já contra, “Sertânia” tem a repetição de eventos e a pretensão. Quando a obra tenta tornar-se metalinguística ao expor a essencialidade de sua farsa – afinal, todo filme é uma mentira –, o longa não consegue ir além de cenas que, mesmo que, individualmente, funcionem, não parecem articular ideias que fortaleçam a obra como unidade.

É, todavia, na busca por rostos e expressões, que Sarno molda seu filme. “Sertânia” passa rapidamente por armas e conflitos e busca sempre retratar como estes impactam no indivíduo e no coletivo. A obra de Sarno acolhe seus personagens e não perde tempo os julgando, aceitando a complexidade de cada um deles e os utilizando, na verdade, para lançar esse olhar que mostra como a violência faz parte da formação cultural brasileira. É uma obra de personagens rastejantes, densos e intensos, que sobrevivem como pode em um cenário no qual a lei é a bala e a guerra continua, antes e depois da passagem de cada um daqueles criminosos.

Fonte: Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto para a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes. 
Por Matheus Fiore
Crítico de cinema, podcaster e redator. 

Para ver o filme, veja o link abaixo:
https://drive.google.com/file/d/1a3iQkiN5aJzbJ8-sCoeC7xKukmCvG9vb/view?usp=sharing


Nenhum comentário:

Postar um comentário