sábado, 10 de setembro de 2016

Entrevista com Mel Gibson sobre Hacksaw Ridge e outros filmes



Depois de uma década de ausência, Mel Gibson voltou à direção com o filme Hacksaw Ridge, que podemos literalmente traduzir como Montanha ou Morro do Serrote, mas certamente terá um título mais dramático aqui no Brasil. O filme recebeu uma ovação de 10 minutos na première do filme no Festival de Veneza, com críticas muito boas.

Andrew Garfield como Desmond Doss
Andrew Garfield (que, em breve, também vai aparecer no filme Silêncio de Martin
Scorcese, como um padre missionário português no Japão) interpreta o soldado Desmond Doss, um soldado condecorado na 2ª Guerra Mundial, que se recusava a matar e a carregar uma arma. Ela era Adventista.
 
Depois dos episódios de comentários antissemitas, proferidos por um dia de bebedeira e daí sendo colocado de lado pela indústria do cinema, Gibson parece estar de volta ao seu lugar na mesa. Sua habilidade como cineasta, desde a sua transição de super astro a diretor jamais esteve em discussão, mas já faz 10 anos que ele dirigiu Apocalypto, vinte e um anos desde Coração Valente, quando ganhou Oscar de melhor diretor e filme e há 14 anos desde que a Paixão de Cristo se tornou o filme independente que mais faturou em todos os tempos.


Gibson é entrevistado longamente pelo site Deadline. Seguem alguns pedaços dessa longa entrevista.


Depois de 10 anos longe da direção, o que significou para você, quando o filme Hacksaw Ridge obteve uma ovação de pé por 10 minutos, nesse último fim de semana?

GIBSON: Fiquei muito contente pela recepção em Veneza. Poder compartilhar com o elenco foi muito especial, pois é esforço de colaboração de cada pessoa e equipe que contribuíram com esse aplauso. Não faço filmes para a elite, assim ter essa grande audiência na sala de exibição e na reação que provocou, foi muito gratificante para dizer o mínimo.


Já tinha levado algum filme antes para Veneza?

GIBSON: Acho que foi um dos filmes de Mad Max. Eu me lembro de que encontrei o Kevin Costner no Lido e fomos andar de bicicleta. Nós descobrimos uma que não estava presa com corrente e nós a emprestamos. Ele pedalava e eu na cestinha da bicicleta, como no filme ET. Deve ter parecido tão idiota, mas conversamos bastante sobre filmes e outras coisas. Está aí uma pessoa que gostaria de ver dirigir novamente.


Os filmes que dirigiu como Coração Valente e Apocalypto, tinham protagonistas que se engajavam em violência. Desmond Doss, nesse filme Hacksaw Ridge,  é o extremo oposto. O que te despertou na história desse soldado?

Mel Gibson em Coração Valente
 GIBSON: Foi o que me impressionou mais do que tudo. Ele não carregava uma arma, nunca deu um tiro e acreditava que era errado matar sob qualquer circunstância. Mas ele tinha coragem de ir para o pior lugar que você possa imaginar e firme em suas convicções, armado com nada mais que a pura fé. E ele não fez apenas na decisão de um momento. Ele fez e fez várias vezes. Ele o fez também em batalhas diferentes também.  Em locais como Guam e nas Filipinas, ele sempre se arrastava em direção ao inimigo para buscar os companheiros feridos. Eles diziam para ele não ir, mas ele era do tipo que se alguém está com problema lá na frente, eu tenho que busca-los. E ia busca-los e sem levar uma arma. Ele era convicto de seus princípios em relação a armas, mesmo frente às piores condições. Foi pior na vida real do que eu retratei no filme.


Você o mostra sendo surrado nos alojamentos dos soldados.

GIBSON: Foi pior que aquilo. Ele foi discriminado mais do que eu filmei. Ele sofreu bastante. Muitos amigos não sabiam que ele podia aguentar aquilo. Ele era duro.


Como foi para buscar fundos para um filme de guerra, onde o herói não toca uma arma?

GIBSON: Não foi difícil, porque o produtor, Bill Mechanic, já está nessa lida há 15 anos. Sabia que o famoso produtor Hall Wallis tentou obter os direitos para essa história nos anos 40. Até mandaram o ator Audie Murphy (que também foi veterano e condecorado na guerra) para conversar com Desmond Doss para ver se ele conseguia convencê-lo a dar a eles os direitos para o filme. Ele disse que não estava à venda. Ele era um fazendeiro. Plantava vegetais. Nunca tinha ido ao cinema


O que fez ele mudar de ideia?

GIBSON: Eu acho que, nos últimos anos de sua vida, os membros da sua congregação apelaram para que ele realmente contasse sua história, pois seria inspiradora para outras pessoas. Quando ele acabou falando sobre seu tempo na guerra, isso acabou levando outros médicos a fazerem o mesmo em batalhas, por causa da inspiração em Desmond. Assim, ele pensou que seria um modo de falar sobre convicções, fé e coragem. Ele não se via como um herói, mas as pessoas como ele não se veem como heróis. Ele não queria contar bravatas sobre isso ou mesmo falar muito sobre isso, mas no final, os anciões da congregação dele insistiram para que ele desse os direitos. Ele disse, talvez quando eu morrer. Eles fizeram um documentário sobre ele.


Isso fez a narrativa ser possível?

GIBSON: Sim. Ele confiou os direitos vitalícios para os membros da sua igreja. Depois, Bob Mechanic foi ter com eles e disse: “Olha, vocês me passam os direitos e eu prometo que farei a coisa certa”. Nós mostramos a todos eles, ao Conselho de Desmond Doss dos Adventistas do Sétimo dia. Eles aprovaram.


Não foi o Bob Mechanic o executivo que deu a Fox os direitos internacionais de Coração Valente, ajudando assim o filme a ser possível?

GIBSON: Exato. Ele ofereceu a parte internacional. Não se diz mais estrangeiro. Se diz internacional.


Até Coração Valente foi difícil de bancar?

GIBSON: Nada deste tipo de coisa é fácil. Nunca é. Eu quero dizer que as pessoas olham depois que é muito bom, mas muitas vezes não parece tão bom na ideia inicial. Neste filme, Bill gastou 15 anos do seu tempo. Ele até me mandou o script por duas vezes antes. Eu passei para frente nessas duas vezes.


 É incomum para você voltar atrás após uma negativa?

GIBSON: Bom, eu fiz isso com Coração Valente. Passei adiante. Até gostei e achei que talvez. Por uma razão ou outra. Depois, foi como aconteceu com este filme. As coisas começam a aparecer de novo e você agora começa a visualizar como seria. Eles não ofereceram Coração Valente para eu dirigir. Eles me ofereceram para atuar nele.


Eles queriam que você interpretasse William Wallace.

GIBSON: Isso. Mas depois eu comecei a visualizar o filme, muito. Pensei como seria legal fazê-lo. Você tem algumas ideias de cenas na cabeça e visualiza o que você queria ver. Dois anos depois, eu tinha acabado um filme e alguém disse: o que quer fazer agora? Tem um roteiro que eu li um tempo atrás, passei para frente, mas eu gostei dele. Essa pessoa disse do que se tratava. Descrevi a estória toda para ele de memória, mas disse a ele das ideias da minha cabeça. Ele depois leu o script e disse que era muito bom, mas o que eu disse era diferente. Aí, eu li de novo e pensei: eu tenho que fazer isso. E assim foi.


Em Hacksaw Ridge há uma evolução no filme até a batalha do título, mas as cenas de guerra são tão estonteantes e desorientadoras, como pode ser lembrado das cenas de praia do filme O Resgate do Soldado Ryan. Como você fez isso com $40 milhões?

GIBSON: Tem que trabalhar com um doido. Todos são bons no seu trabalho e fazem tudo com menos e você usa alguns atalhos. Há coisas que eu queria fazer, mas não fiz.


Como quais?

GIBSON: Bom, você estava dizendo como foi intenso. Eu queria entrar nisso mais. Levaria mais tempo que dinheiro. Tinha algumas ideias que eram realmente malucas. Investigar a área entre o homem e a bala. Apenas entrar nisso. Mas seria bastante visual, você entende que é realista e faz as devidas edições. Mas muito mais poderia levar para um extremo perigoso.


Quem está se interessando pelo filme?

GIBSON: Experimentamos duas vezes e acho que todo mundo gostou. As mulheres gostaram mais do que os homens.


Por quê?

GIBSON: Acho que devido ao aspecto do romance e a garota, interpretada por Teresa Palmer. Acho que as mulheres são, como seres humanos, mais afetivas. Assim, você vê um homem fazendo aquilo que eu acho que sensibiliza a pessoa. Eu quero dizer que a maioria das mulheres se torna mãe em algum ponto. Elas estão sendo afetivas. Esse personagem era tão afetivo como uma mãe. Assim, eu acho que toca as mulheres.


Você foi para a Austrália para produzir esse filme por 40 milhões? Quando foi a última vez que filmou lá? Mad Max?

GIBSON: Sim, foi quando eu tinha 28 anos, são 30 anos atrás. Me senti bem em ir para lá fazer o filme. Tivemos algumas vantagens por ser um filme totalmente australiano. Todos os atores são australianos, exceto Andrew e Vince Vaughn. Assim, a produção é de um filme australiano, mas uma história americana, que é meio incomum. 



Você fez Apocalypto por cerca de $30 milhões?

GIBSON: Um pouco mais que isso.


O que você acha quando lê que todos esses grandes filmes por aí ultimamente que chegam a custar $200 milhões ou mais? Tem que ser tão caro?

GIBSON: Acredito que não. Eu olho para eles e coço minha cabeça. Ficou realmente perplexo. Acho que há muito desperdício, mas talvez se eu fizesse algumas dessas coisas com as telas verdes (para efeito especial) eu pensaria diferente. Não sei. Talvez eles custem muito mesmo. Não sei. Me parece que você poderia fazê-los por menos dinheiro.


Se tiver sucesso, a recompensa será enorme, mas você tem que ganhar muito dinheiro para empatar com os custos.

GIBSON: O jogo é esse, não é?


Mas um bom jogo?

GIBSON: Bem, eu quero dizer que se estiver gastando montanhas de dinheiro, $180 milhões ou mais, não sei como dar todo o retorno depois que o Leão pega o imposto e depois que você dá metade para os exibidores. Quanto eles gastaram com Batman vs. Super-Homem e que admitem?


Eu diria $250 milhões. Depois, você tem o marketing.

GIBSON: E é um monte de m..da.


Não foi muito divertido.

GIBSON: Não me interesso pelo tema. Sabe qual a diferença entre os verdadeiros super-heróis e os dos gibis? Os verdadeiros super-heróis não usavam spandex (elastano, que os atores usam nas roupas dos super-heróis.). Assim, eu não sei. Spandex deve custar muito.


O campo de batalha do seu filme foi terrível. Da mesma forma com Coração Valente, que pareceu passar adiante o estilo de outras tantas batalhas medievais, incluindo O Senhor dos Anéis e Game of Thrones. No filme agora, é diferente, com tiros de armas e explosivos. Qual o grande desafio de fazer esse tipo de cenas épicas de batalhas?

GIBSON: Deve se manter a segurança, mas ao mesmo tempo fazer parecer tudo incrivelmente insano e verdadeiro. Uma concentração de tiros e explosivos fazendo parecer real e não machucar ninguém. Tem um pouco de efeitos especiais, mas a maioria da pirotecnia está lá e os explosivos são reais. Quando você vê os soldados terem suas pernas despedaçadas, é real. Eles têm aparelhos agora em que você anda por eles e eles explodem. Coisa de louco. Eu vi outros filmes de guerra e há muito poucas explosões, porque elas são reais e perigosas. As coisas que usamos, você as vê estourando assustadoramente. Pessoas pegando fogo. Isso já se fazia, mas eles estão melhorando bastante com as vestes de neoprene que eles usam. Toda aquela pirotecnia é real. Os japoneses a chamavam de chuva de aço.


Essa foi a estratégia de batalha?

GIBSON: A chuva de aço. Ela vem de ambos os lados. Eles chamavam de chuva de aço e foi o primeiro uso real de napalm. Assim, quando eles estavam jogando nos soldados a gasolina, foi bastante ruim. Eles tinham que usar por causa das cavernas e o material subterrâneo e se tornou uma arma muito temida. A logística de se filmar isso com todo o tiroteio, com as explosões, com os lança-chamas, a intensidade da batalha, eu acho, entra tudo nisso. E eu me matei para colocar tudo isso, em 59 dias. Quase 30 disso foram em combate.


Você fez filmes com diretores australianos, como George Miller e Peter Weir. Você pensava em dirigir quando ainda era jovem e trabalhava com essas pessoas?

GIBSON: Ah, sim, eu absorvia tudo. George é um doutor e ele tinha a persona do Einstein, quando ele ia a lugares onde costumava ir como o mesmo terno oito vezes, assim ele não tinha que pensar no que ele iria vestir. Ele é um pouco excêntrico, mas é um cara legal. A melhor coisa sobre ele é que é generoso. Eu fazia um monte de perguntas. O que estamos fazendo aqui? Ele parava e explicava porque ele adora o processo e adora compartilhar. Assim com um cara desses, eu aproveitava tudo como uma esponja. Eu tinha 22 anos e só absorvendo. Trabalhei com ele três vezes e sempre fazia perguntas. Depois, é claro que trabalhei com Peter Weir. Cineastas completamente diferentes.


Gallipoli, O Ano em que vivemos perigosamente.

GIBSON: Há algo etéreo sobre ele. Ambos são excelentes diretores, mas são tão diferentes, que significou algo para mim. Não há maneira de alcançar a excelência. Ele era também muito generoso em suas explicações e descrições. Suas explicações não eram matemáticas, elas eram mais espirituais. Foi muito interessante. Essas são as pessoas com que aprendi quando era jovem. Como você pode fazer algo melhor que esses dois caras? Todos com quem trabalhei depois, foi o mesmo. Eu estava sendo querendo entender o que faziam e perguntava um monte de coisas. Richard Donner era fantástico. Ele sempre se denegria. Sou apenas um policial de trânsito era o que ele dizia. Mas ele era muito brilhante. Ele conhece a estrutura. Ele sabe como filmar algo. Ele sabe como fazer engraçado. Ele sabe como levar adiante e manter a energia.


Então você aprendeu com eles, mas que salto, hein, depois de Um Homem sem Face até Coração Valente, depois Apocalypto e agora  Hacksaw Ridge.

GIBSON: Eu queria mostrar às pessoas coisas que nunca viram antes, coisas que eu queria ver e pensava que poderia conseguir. Eu achava que se conseguisse chegar à metade, já seria bom.


John Wayne em Iwo Jima
Quais os filmes de guerra que te marcaram?

GIBSON: Eu gosto de Iwo Jima- O Portal da Glória (Sands of Iwo Jima, 1949). E você já viu um filme chamado Um Punhado de Bravos (Objective Burma, 1945) ?


Não.

Errol Flynn à esquerda em Um Punhado de Bravos
GIBSON: Eu adoro esse filme e como lida com a guerra no Pacífico, em tentar ver por que ocorreu. As coisas eram bastante censuradas naquele tempo e você não podia mostrar muitas coisas terríveis, mas era que meio sugerido. Raoul Walsh dirigiu o filme com o Errol Flynn atuando. Ele salta de paraquedas em Burma (hoje Birmânia ou Myanmar, ao lado da Tailândia), com a esperança de destruir uma importante base de radar. A missão é um sucesso, mas o grupo alcança a faixa de terra onde eles esperavam encontrar aviões prontos para voa-los de volta à segurança. Raoul foi um dos grandes diretores. Ele usava um tapa olho, como um pirata. Walsh fez ótimos filmes.


Andrew Garfield é mais conhecido por Homem Aranha, mas mostrou uma empatia no filme Rapaz A (de 2007). O que fez o colocar no seu radar?

GIBSON: A primeira vez que vi Andrew foi em A Rede Social. Eu me lembro de que ele teve uma parcela menor no filme, mas foi bastante verdadeiro e podia dizer as coisas com os olhos, que acho muito interessante. Ele é muito bom ator. A tela é realmente o seu meio. Ele não é musculoso, apenas um homem comum. Ele parece com o tipo físico de Desmond Doss. A única coisa é que ele parece mais jovem do que é e acho que ele tem o benefício de ter mais anos de sobra para alguns papeis.


Por que você não interpretou o pai dele? Eu me lembro de que você interpretou William Wallace apenas porque você precisava, para que fosse financiado. Você não poderia fazer com o ator de sua escolha, Jason Patric. Não esteve tentado aqui em fazer um papel grande?

GIBSON: Não. Não estive, logo que vi o Hugo Weaving. Achei ele ótimo. Ele se tornou óbvio para o papel. Se tiver alguém como Hugo, você tem que usar esse cara. Não posso fazer o que ele sabe fazer.
Hugo Weaving (2º da esquerda para direita, Mel Gibson e Vince Vaughn

Você pensa no elenco quando dirigi, dizendo, Eu vou fazer esse papel se não achar o cara certo?

 GIBSON: Mais ou menos. Eu não quero, porque quando está em algo e você também dirigi, no final da filmagem, você vai estar em uma camisa de força e internado. Porque a carga de trabalho é imensa. Depois de Coração Valente, eu não conseguia falar com ninguém por um mês. Isso, depois de 105 dias de filmagem. Eu estava acabado. Praticamente anestesiado na sala de edição.


Por que tanto tempo longe atrás das câmeras?

GIBSON: Quer que fale a verdade?


Claro.

GIBSON: Não sei se quero isso publicado. Você saber por quê.


Gostaria de saber mais sobre o que atrapalhou sua habilidade de dirigir. Não acho que vi um filme melhor no ano em que saiu Apocalypto. Acho que as pessoas não o olharam com atenção, mas foi um filme muito interessante. E dez anos se passaram.

GIBSON: Fiquei extremamente orgulhoso desse filme e da recepção que ele ainda tem até hoje.


Você vai trabalhar com Sean Penn no filme O Professor e o Louco. Como foi que você chegou a esse papel?

GIBSON: Na verdade, foi um livro que foi trazido a nós pelo Luc Besson, que disse que o inglês não era a primeira língua dele e esse filme é sobre a língua inglesa. Eu li o livro e parecia ser um assunto árido, a criação do dicionário de inglês Oxford. Mas eu comecei a ler  e não consegui parar. Depois, você fica sabendo da verdadeira compilação do maior compêndio já feito por uma língua. Ninguém tem um dicionário como Oxford. Levou 70 anos para completar, porque não havia computadores. (VIDE POST SOBRE ESSE FILME NESTE BLOG)


Um grande contribuinte do dicionário estava confinado em uma instituição mental. Sean Penn vai interpretá-lo?

GIBSON: Ele era americano. A coisa interessante sobre o Dicionário de Oxford é que as duas pessoas que mais contribuíram com ele não eram ingleses. Um era um escocês, chamado Dr. James Murray, que era um autodidata. Ele sabia grego e latim e sabia as raízes e origem das palavras. Oxford o contratou para essa tarefa gigantesca de fazer esse livro sobre a língua inglesa, que tinha sido tentado algumas vezes por diferentes pessoas em outros séculos. Samuel Johnson foi um.


A mensagem desse filme é que a distância entre a genialidade e a loucura é da espessura de uma navalha?

GIBSON: É bastante correto. James Murray foi quem recebeu a incumbência, mas o homem que o ajudou mais, foi uma pessoa com quem ele correspondia, um médico de um asilo de loucos. Murray ficou curioso em saber como uma pessoa, que trabalhava como um médico nessa instituição, poderia ter tempo para ler tanto e contribuir com tanto até mesmo a silabação das palavras, a pronúncia, a etimologia, as origens. Aí então, ele vai visita-lo e descobre que ele não é um médico trabalhando no lugar. Ele é um dos internados. Ele foi colocado na instituição por ser criminalmente insano. Ele foi um tipo extraordinário. Ele foi cirurgião na Guerra Civil e amputava as pernas dos soldados. Ele deve ter visto tantas coisas ruins que provocou problemas em sua cabeça. Uma ocasião, ele achava que alguém estava entrando na sua casa uma noite, pegou seu revólver do exército, saiu na neblina da noite e atirou na primeira pessoa que ele viu, achando que fosse alguma pessoa perigosa. Era apenas o homem do carvão. Aí, ele percebeu que tinha feito a coisa errada e se arrependeu. No final, decidiram que ele era louco e o colocaram nesse sanatório. Ele finalmente saiu quando já era velho. Essas duas pessoas formaram um grande amizade e uma história muito interessante. Sean Penn sempre gostou da ideia do filme e conversamos a respeito várias vezes. 


E sobre o épico Viking?

GIBSON: Ainda está por aí. Randall Wallace e eu já escrevemos. Ele vai sair em breve.


Você realmente vê uma sequência para A Paixão de Cristo?

GIBSON:  É algo sobre o que começamos a conversar. Uma espécie de sequência, que começa na Ressureição, mas salta para antes disso, de volta do Velho Testamento. O Velho Testamento é a pré-figuração de tudo e o Novo, você pode correlacioná-los de uma maneira inteligente.


O que mais tem de material que lhe interessou?

GIBSON: Há um para a TV, The Barbary Coast. É uma estória escrita por uma pessoa chamada Herbert Asbury lá nos anos 30, sobre a cidade de São Francisco no tempo da corrida do ouro. No lugar que era o México e depois de repente não é México mais e então o ouro foi descoberto. Começa daí e vai até o terremoto de 1906. É uma estória extraordinária. Eles a chamavam de Barbary Coast (Costa dos Bárbaros) porque era cheia de piratas, crimes, gangsters e ganância.


Você está trabalhando junto com Kurt Russell?

GIBSON: Kurt, a Kate Hudson, o filho de Kurt, Wyatt, e Oliver Hudson. Eu estava falando com o meu gerente, Rick Nicita, a respeito desse livro obscuro que eu li e que daria um bom filme. Ele disse que o Kurt havia falado com ele sobre isso. Os filhos dele trouxeram o livro para ele e disse por que vocês dois não se juntam. Eu trabalhei com o Kurt em Conspiração Tequila (Tequila Sunrise, 1988), quando éramos novinhos. A TV tem se tornado um veículo diferente e muito emocionante. A maneira de contar uma história como a de Alexandre o Grande é pela televisão, porque é muito grande para duas horas de filme. Há muitas estórias como essa.


Você tem outras grandes estórias como a dos Macabeus: você vai leva-las para esse formato?

GIBSON: Bem, inicialmente com esse livro, eu estava pensando em um aspecto do livro que daria um bom filme e ainda posso fazer isso. Mas a estória toda é gigante e o melhor modo de levá-la ao ar é pela TV. Nós não temos ainda uma rede de TV por trás, mas vamos escrever e vou dirigir alguns delas, talvez nem todas elas. Tem outros bons diretores por aí. Sobre os Macabeus, eu ainda vou fazer também. É como o caso do Viking, está sendo incubado. É a melhor estória do Velho Testamento. Como um western, mas a 175 antes de Cristo.


O filme Viking parece muito ambicioso, também.

GIBSON: Bem, ninguém ainda viu. Eu o vejo. 


Bem, eles não viram Paixão também...

GIBSON: Ou Apocalypto. Houve uma época em que costumava colocar o bolso em meu próprio bolso, mas não estou fazendo isso mais, porque você pode se queimar facilmente. Você pode ter um filme de sucesso e ter todos os cinemas expondo o filme depois de uma semana, que aconteceu com Apocalypto. Nas palavras de um velho e sábio contador, DOP. O que é isso? Dinheiro de outras pessoas. Não é tão lucrativo se você tiver sucesso, mas você consegue fazer e não precisa voltar a pé para casa.


Quando olha em retrospecto para esses filmes, como por exemplo, The Bounty (Rebelião em Alto Mar, 1984), você tem boa lembrança?

GIBSON: Foi muito difícil.


Hopkins como Bligh e Mel como Fletcher Christian
Roger Donaldson tinha um grande elenco: Daniel Day-Lewis, Liam Neeson, Laurence Olivier e Anthony Hopkins.

GIBSON: Foi excelente. Eu era novo, 27 anos e interpretava o Fletcher Christian. Foi um pouco estranho, mas foi um bom filme. Se você tem uma escolha de uma direção em um filme, eu acho que a melhor coisa foi o que Tony Hopkins fez. Ele interpretou o Capitão Bligh com toda a honestidade e meio que exonerou Bligh de toda a culpa. Bligh não era um cara ruim.


Ele acabou ficando na estória como vilão.

GIBSON: Na verdade, Fletcher Christian era um tipo de vilão. Eu quero dizer que não se coloca pessoas à deriva em um pequeno barco no oceano para morrer, como ele fez. Não havia uma razão suficientemente boa. Bligh e outros membros da tripulação não tinham feito nada que merecesse esse tratamento. O que eles estavam tentando fazer era tornar o Christian como o jovem, romântico e herói e ao mesmo exonerar Bligh, mas não se podia fazer ambas as coisas. Eu acho que teria sido mais interessante mudar a estória completamente para tornar Fletcher Christian o vilão da estória, porque essa era a verdade. Ele era uma espécie de vilão. Bligh fez algo de extraordinário. Uma viagem pelo mar aberto sem uma bússola e encontrou o caminho para onde pretendia ir. É um fato inigualável da marinha até hoje. Ele só tinha um defeito que era ser um cara muito perfeccionista e era duro demais com os homens, que não chegavam ao seu padrão. Assim, a tripulação acumulou um grande ressentimento em relação a ele, porque ele os repreendia. Mas ela era o capitão e ele foi vilipendiando nas estórias.


FIM

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