quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Fatos curiosos sobre alguns filmes de Stanley Kubrik

É difícil de acreditar que Stanley Kubrik, a personificação da teoria do cinema de autor, nos deixou 18 anos atrás, aos 70 anos, novo ainda sob os padrões dos dias de hoje. Sua carreira começou com um filme, autodenominado amador, de 1953, chamado Fear and Desire (Medo e Desejo) – um filme de guerra – e culminando com seu último filme, Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados), de 1999. No curso sua carreira, cerca de 50 anos, Kubrik dirigiu apenas 13 filmes – que foi o testamento da reputação do cineasta de ser um consumado perfeccionista, até nos mínimos detalhes. Seguem abaixo curiosidades sobre alguns dos principais filmes de Stanley Kubrik:

1. FORAM 167 DIAS DE FILMAGEM E CERCA DE 10.500 PESSOAS PARA FAZER SPARTACUS (1960)

Foi um épico em todos os sentidos: seu orçamento de $12 milhões de dólares fez dele o filme mais caro na história de Hollywood na época. Seu orçamento acabou excedendo o valor patrimonial da Universal Studios, que foi vendida para a MCA por $11.250.000 durante a filmagem. No total, foram envolvidos cerca de 50.000 extras.

2. DR. STRANGELOVE - DR. FANTÁSTICO – (1964) DEVERIA TER SIDO UM  DRAMA.

O clima político internacional do começo dos anos 60 deu a ideia para Kubrik escrever e dirigir um filme  dramático sobre a guerra nuclear. Kubrik começou a ler uma montanha de informações sobre o assunto, até que chegou a ele o livro Red Alert, de Peter George. A Columbia Pictures comprou os direitos e Kubrik passou a converter o livro em um roteiro.
Durante o processo de escrever, o diretor lutava para escapar do tom persistente de comédia, porque ele achou que a grande maioria das calamidades políticas, descritas na estória, eram inerentemente engraçadas. No final, Kubrik abandonou a ideia de querer evitar o senso de humor negro e deixou-se levar completamente.  Excluindo-se o tom sarcástico, o enredo do filme é muito similar ao do livro de Peter George. Tem uma grande exceção: o Dr. Fantástico não aparece no livro  - Kubrik e o escritor Terry Southern criaram o personagem.
Outra curiosidade do filme é que Kubrik mentiu a George C. Scott, para que ele fizesse cenas mais engraçadas. George, que interpreta o bombástico General Buck Turgidson, estava com receio em desempenhar o papel de forma exagerada demais. Kubrik convenceu Scott a fazer as cenas animadas e de modo exagerado como o personagem Buck, prometendo a ele que elas seriam apenas testes e não seriam usadas na edição final do filme. É claro, que as cenas, gravadas e mantidas na edição final do filme, foram as mais malucas do ator. Scott se sentiu traído e prometeu que nunca iria trabalhar com Kubrik novamente.  Embora Dr. Fantástico tenha sido o único filme juntos, Scott acabou gostando bastante do filme e de seu desempenho.
O filme Dr. Fantástico também acabou influenciando o governo americano a ter mais cuidado com as armas nucleares. Enquanto que certos críticos, políticos e militares acharam Dr. Fantástico como sendo uma farsa e falácia, a aterradora possibilidade dos acontecimentos em jogo no filme despertou a atenção dos órgãos governamentais de Washington, incluindo o Pentágono. Em meados dos anos 60, houve mudanças de procedimentos para que nenhum indivíduo no governo tivesse acesso ao código completo, para habilitar uma arma nuclear. Nos anos 70, a Força Aérea começou a empregar códigos cruzados, que não permitissem a liberação não autorizada de armas nucleares, como foi representado pelas ações do General Ripper no filme.

3. KUBRICK TEVE UMA PEQUENA AJUDA DE CARL SAGAN EM 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (1968)

Kubrik começou a produção de 2001, sem saber como transportar para a tela as principais cenas do filme – mais notadamente o final, quando o Dr. Dave Bowman, interpretado pelo ator Keir Dullea, faz o contato com os extraterrestres. Um dos grandes problemas que Kubrik teve, enquanto desenvolvia o filme, era como mostrar as formas de vida extraterrestres de uma maneira que fosse adequada às ideias abstratas dele, mas que também ficassem dentro do orçamento do filme. Assim, ele pediu ajuda ao famoso astrofísico Carl Sagan .
Em seu livro “A Conexão Cósmica: Uma Perspectiva Extraterrestre”, Sagan explicou. “Eu argumentava que o número de ocorrências individualmente improváveis na história evolucionária do homem era tão grande, que nada igual a nós seria possível se desenvolver novamente em qualquer lugar do universo. Eu sugeri que qualquer representação explícita de um ser extraterrestre avançado deveria ter, pelo menos, um elemento de falsidade em relação a ele, e que a melhor solução seria sugerir, em vez de exibir explicitamente os extraterrestres.”
Embora, Kubrik experimentasse maneiras literais de mostrar os alienígenas em 2001, como a cena de balé em uma roupa de bolinhas contra um fundo negro, ele acabou aceitando a insinuação dos extraterrestres sugerida por Carl Sagan.

4. KUBRICK NÃO ESTEVE INICIALMENTE CONVENCIDO EM FAZER  LARANJA MECÂNICA (1971)

O diretor viu o livro de Anthony Burgess, The Clockwork Orange (A Laranja Mecânica), quando o seu co-autor do roteiro de Dr. Fantástico, Terry Southern, deu a ele uma cópia do livro no set daquele filme. Southerm gostou do humor negro do livro e achava que Kubrik devesse considerar adaptá-lo para o cinema.  Kubrik não gostou do livro na primeira leitura, por causa da linguagem de neologismos criada por Burgess para o romance. A linguagem era confusa para Kubrik, até que ele releu o livro, depois que seus esforços de fazer um filme sobre Napoleão foram por  água abaixo.
Kubrik começou a mudar de ideia quando ele considerou Alex (personagem principal do filme), vivido por Malcom McDowell, como um tipo de Ricardo III, Rei da Inglaterra.
O diretor recebeu ameaças de morte por causa do filme Laranja Mecânica. A imprensa culpou a violência de Laranja por uma série de crimes parecidos com os do filme na Grã-Bretanha no início dos anos 70, e pediu para que o filme fosse proibido. O filme permaneceu em cartaz nos cinemas até que um incidente fez com que Kubrik acabasse pedindo para a Warner retirar o filme.
Enquanto estava na Irlanda para seu próximo filme, Barry Lyndon, Kubrik recebeu ameaças de morte contra ele e sua família. Prometiam invadir sua casa, que era longe dos arredores de Londres, tal como faziam Alex e sua turma de A Laranja Mecânica. Preocupado, Kubrik pediu para o estúdio não exibir o filme nas Ilhas Britânicas e Irlanda, até a sua morte em 1999.

5. KUBRICK USOU LENTES ESPECIAIS PARA FILMAR BARRY LYNDON (1975) SOB LUZ DE VELAS

Todos os ambientes de filmes históricos, que parecem ser iluminados por velas e lâmpadas a óleo, na verdade são produzidos com iluminação elétrica, que não aparece na cena. Isso não foi o caso de Barry Lyndon. Kubrik e o cinematógrafo John Alcott queriam usar menos luz elétrica quanto possível e foram ao extremo de pedir lentes especiais para a NASA, as quais foram instaladas em câmeras, que poderiam ser unicamente usadas com essas lentes. As lentes super-rápidas conseguiam capturar perfeitamente as cenas iluminadas por velas, criando uma imagem diferente de qualquer outro filme.

6. STEPHEN KING NÃO GOSTOU DO FILME  “THE SHINING - O ILUMINADO” (1980)

“Eu admirava Kubrik há bastante tempo e tinha grandes expectativas para o projeto do filme, mas fiquei profundamente desapontado pelo resultado final,”  Stephen King disse à Playboy em 1983. “ Algumas partes do filme são assustadoras, carregadas de terror claustrofóbico, mas outras são chatas.”
Ele não gostou também que Jack Nicholson tenha sido escalado. “Jack Nicholson, embora sendo um ótimo ator, era todo errado para o papel. Seu último grande papel tinha sido One Flew Over the Cuckoo’s Nest (Um Estranho no Ninho), e o público automaticamente o identificou como o lunático desde a primeira cena. 
Outro fato sobre O Iluminado é que havia outro final original para o filme. Não é fato incomum que o final de um filme seja mudado em pós-produção, mas Kubrik mudou o final do filme, depois que já estava sendo exibido nos cinemas há uma semana. A versão do filme está perdida, mas páginas do roteiro realmente existem. A cena acontece depois que Jack morre na neve.  Stuart Ullmann (Barry Nelson) visita Wendy Torrance (Shelley Duvall) no hospital. Ele diz a ela: “Sobre as coisas que você viu no hotel. A polícia me disse que passaram um pente fino no local e não encontraram a menor evidência de qualquer coisa fora do comum.” Ele também pede para Wendy e Danny ficarem com ele um pouco. O filme termina com o texto sobre fundo preto, “O Hotel Overlook vai sobreviver a essa tragédia, como já fez a muitas outras. Ainda está aberto todos os anos, de 20 de Maio a 20 de Setembro. Está fechado para o inverno.”

7. EYES WIDE SHUT - DE OLHOS BEM FECHADOS – (1999) É BASEADO EM UM ROMANCE DE 1926.

O filme De Olhos Bem Fechados é baseado um pouco no romance do austríaco Arthur Schnitzler, Die Traumnovelle ou Breve Romance de Sonho, publicado em 1926. Considerando que o filme acontece nos anos 90 de Nova York, obviamente não foi uma adaptação direta, mas tem pontos do livro no seu enredo e temas. “O livro explora a ambivalência sexual de um casamento feliz e tenta equacionar a importância dos sonhos sexuais e um “poderia ser” com a realidade,” explicou Kubrik. “ O livro contrapõe as aventuras reais de um marido e as fantasias de sua esposa fazendo a pergunta: Há uma diferença grande entre ter uma aventura sexual em sonho e uma aventura real?”
Outro fato curioso é que Kubrik faleceu menos que uma semana depois de ter mostrado a edição final do filme para a Warner. Ninguém pode dizer se ele iria continuar a editar o filme. Uma coisa que foi mudada, depois da sua morte, foi a dos corpos na cena de orgia. Foi alterada digitalmente para que o filme pudesse ser liberado com uma classificação menor de idade, embora muitos diziam que Kubrik queria fazer isso, também. De acordo com Nicole Kidman, “Eu acho que Stanley ainda pensaria sobre o filme dali a 20 anos. Ele ainda pensava nos filmes que tinha feito décadas atrás. Ele nunca achava que os havia terminado. Nunca era perfeito o bastante.”


Fonte: LewRockwell.com e Dentalfloss.com

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