domingo, 8 de julho de 2018

Terry Gilliam, diretor de "Quixote" em entrevista sobre filmar fantasia e o trabalho com atores

Terry Gilliam
Ainda recente de um embate jurídico que teve a respeito do seu filme, Terry Gilliam esteve esta semana no Festival Checo de Cinema, onde promoveu seu novo filme "Quixote", determinado a ver sua fantasia continuar a correr o mundo, após completar o filme depois de quase 20 anos após a primeira cenas externas na Espanha. Mas o jovial setentão disse a Will Wizard para a revista "Variety" que ele não é um cavaleiro errante - apenas uma versão crescida da criança dando suas risadinhas no fundo da sala de aula.

De qual filme vocês gostaria de ser lembrado?
"Quando eu estive nos EUA para promover o filme 'Brazil: o Filme', eu fui ao Texas. Fui até um programa de rádio e um ouvinte telefonou. 'Ei, Mr. Gillian - filme maravilhoso. Eu dei algumas risadinhas pela surpresa.' Eu quero que ele seja colocado na minha lápide. As risadinhas na escola eram sempre sentar no fundo da sala.

Para um diretor que dá muita atenção para o desenho de cena, você está muito aberto a mudanças, eu suponho.
"Nós sentamos, escrevemos, mas quando estamos filmando e temos bons atores, chegamos a ideias e modos diferentes de se fazer. Em 'Quixote', Jonathan Pryce, que queria fazer o papel há 15 anos, nos primeiros dias, ele esteve improvisando muita coisa. Eu mantive tudo."

Qual foi a fórmula para misturar realidade com fantasia neste filme?
"É tudo real. Eu não faça distinção entre a realidade e a ficção, esse é o meu problema. Isso é porque eu sempre acabo derrubado. Eu não acho que tenha conquistado quaisquer moinhos de vento - Eu perdi muitas batalhas com eles.

Mas sonhar o sonho impossível sempre o levou adiante, não é? Como seus heróis em "Brazil: o Filme" e "O Pescador de Ilusões"?
"A coisa é que, quando eu era mais jovem, eu pensava que todos viam o mundo do mesmo modo que eu via. Ao ficar mais velho, eu percebi que a minha versão do mundo é muito, muito diferente. A imaginação sempre é uma parte disso, eu acho.
Você quer ser capaz de voar, você quer ser capaz de fazer qualquer coisa. Todos os meus filmes são sobre essa batalha entre a realidade e a fantasia. A imagem que eu mais gosto é em "Brazil", quando Jonathan Pryce  está decolando. É isso. É o modo como eu vejo a vida.
Eu olho ao redor e vejo um edifício e penso, 'Não seria legal se ele pudesse decolar?' Em 'Monty Python - O Sentido da Vida' há essa abertura em que o edifício sai voando. Eu estou olhando para o edifício e tem uns andaimes e então o vento passa e faz parecer que sejam velas de uma escuna.
Isso é o grande barato a respeito dos filmes ou animação. Eu posso ter esses momentos que sejam divertidos e posso deixá-los ser."

O processo de capturar essas imagens em filme envolve uma série de problemas técnicos e práticos, não?
"Eles são o mesmo para mim. Anos atrás, havia um cineasta que me perguntou, 'Como você faz as suas cenas de fantasia?' Eu disse, 'Eu filmo do mesmo modo que as verdadeiras. Não existe diferença para mim. Essas coisas mudam, mas apenas um pouco.
Eu gosto do fato de que se você faz bem a fantasia, o público vai ficar envolvido com ela. Eles vão estar dentro dessa situação um tanto fantástica, antes que eles possam perceber.
Um pouco disso veio por viver em Los Angeles, nos anos 60. Eu morei em Laurel Canyon e foi um tempo fantástico. Todos aqueles carros conversíveis e sempre alguém para pegar no caminho, porque todos pediam carona o tempo todo. Nessas ocasiões, teve uma garota com que fiquei próximo por um tempo. Mas ela gostava de ácido. Ela tomava LSD toda a hora e você ia conversar com ela e ela olhando para o céu.
Você falava, 'O que há de errado?' 'Ah, nada - apenas uma árvore que começou a voar.' 'Ok'. E você vivia com isso. Com todas essas drogas e ficando perto das drogas, nunca tive que tomar. Você começa logo a identificar o que os outros estão tomando. E não leva muito tempo para sua mente dizer. 'Ah, eu posso fazer isso sem as drogas."

Você disse uma vez em referência a "Brazil: O Filme" que nós precisamos de terroristas. Ainda é o caso?
Claro que sim. Os chineses realmente fizeram primeiro - o tigre no portão. É como você controla a população. Você se certifica que há alguma espécie de ameça. Se é real ou não, nós precisamos deles.
Os americanos, em particular, parecem estar criando terroristas. O ISIS tem sido bom por um momento, mas agora parece que estão acabados. Assim, haverá outros - nós matamos muitas crianças na área, para que eles crescessem e quisessem começar a jogar bombas nas outras pessoas.
Como se pode justificar o maior orçamento de defesa do mundo? Quando não há ninguém lá fora, que esteja remotamente perto. E eu quero dizer, pobre Coreia do Norte...mas eu acho que Kim Jong Un é muito esperto."

Você disse que tem repetidas visões de levitação - é isso que o fez interessar na adaptação do livro de Paul Auster, "Mr. Vertigo" ? Como isso está indo?
"É engraçado, eu não tinha pensado a respeito há anos, mas, de alguma forma, veio para mim em Cannes de novo e eu achava que todos tinham esquecido disso. Eu sim. Eu não sei que faz isso sempre voltar. É um belo livro e trabalhei nele bastante. E agora que "Quixote" está pronto, essas coisas aparecem como cogumelos.
Eu queria Ralph Fiennes para fazer o papel e alguém me disse que ele é não é garantido de dar lucro para o filme. Eu disse, 'O quê?!' Esse era o  momento e eu disse, "Ah, dane-se. Se o Fiennes não é garantia de lucro para levar esse adiante, esta é a coisa mais deprimente sobre esse negócio. Você fala em Jonathan Pryce e eles falam que ele não é garantia que vai dar lucro para o filme."

Adam Driver
Mas decisões sobre elenco podem ainda ser críticos para conseguir um projeto para você, se o ator é certo, não é?
Esse filme (Quixote) aconteceu por causa de Adam Driver. Outros ajudaram, mas Adam era a 'pessoa quente'. Nunca tinha visto ele fazer nada. A única coisa, que eu tinha visto foi em 'Star Wars', quando ele abria a boca e tudo mais. Mas minha filha, que é uma das produtoras, disse: 'Você tem que falar com ele.'
Na hora em que me encontrei com ele, eu percebi uma qualidade que era diferente de tudo que havia visto em um ator. Uma quietude e autenticidade. Também gostei do fato de que ele não parece com um ator protagonista. Ele tem uma orelhas grandes e um nariz grande. Aí pensei, 'Esse cara é ótimo! Ele não é Johnny Depp, nem Ewan McGregor. Era isso.
Tanto com ele, como com Joana Ribeiro, eu estava sempre preocupado de que eu teria que ter outros atores para fazer as versões mais jovens. Mas eles fizeram brilhantemente, até mesmo seus rostos pareciam ter formatos diferentes. E tudo isso vem de dentro. 

Os seus heróis não vencem, não é?
"Não, Eles sobrevivem, mas eles não vencem."


Fonte: Variety

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