quarta-feira, 23 de maio de 2018

Entrevista com a atriz Glenda Jackson, indicada ao Tony 2018



A lendária atriz inglesa Glenda Jackson, ganhadora de duas estatuetas do Oscar. Primeiro por “Mulheres Apaixonadas”, de 1971, e o segundo por “Um Toque de Classe”, de 1974, além de ter sido membro do Parlamento Inglês, está atualmente na Broadway com uma nova versão do drama de Edward Albee, “Três Mulheres Altas”. Albee também é muito conhecido pela obra-prima  “Quem tem medo de Virginia Woolf?”

Na entrevista abaixo, Glenda revela por que ela não aceitou o papel de “M” em James Bond e porque “meu pior dia é o dia em que estou de folga”.
“Eu nunca fui uma grande estrela,“ diz ela sobre sua carreira no teatro e nos filmes. Mas isso contradiz o grande público que vai à Broadway para vê-la na peça de Edward Albee, que já acumulou uma receita de $8 milhões de dólares até agora.

O retorno de Jackson para o teatro na idade de 82 anos é um entretenimento garantido por muitas razões. Além de ter participado de dois filmes ganhadores do Oscar de melhor atriz, outros filmes importantes como “Domingo Maldito”, de 1971 com Peter Finch; “Mary Stuart, Rainha da Escócia”, de 1971 com Vanessa Redgrave; e a aclamada minissérie “Elizabeth R”, de 1972, com Robert Hardy, onde ela faz a Rainha Elizabeth I pela segunda vez. Nessa minissérie, ganhadora de 5 Emmys, ela ganhou um Emmy e um Bafta.

No inicio dos anos 90, ela deixou de ser atriz para entrar na política. Ficou no Parlamento
por 23 anos, até se aposentar em 2015. E para muitos, talvez o seu maior discurso tenha sido o de 2013, que ela deu após a morte de Margaret Thatcher, criticando a falecida primeira ministra por considerar “vícios como virtudes” e favorecer a ganância contra a compaixão.

Depois de sair da política, Glenda voltou a atuar com uma vingança, fazendo o papel principal de Rei Lear (em uma troca de gênero) no famoso teatro Old Vic de Londres. No típico padrão Jackson, ela desdenhou aos aplausos de pé, quando foi ao palco receber o prêmio Evening Standard pelo seu desempenho. “Oh, que isso! Não se dão aplausos de pé aqui na Inglaterra”, reclamou com o público.

Sua ida a Nova York começou com o produtor Scott Rudin, um fã dela, desde que a viu no palco em 1965 na peça Marat/Sade. Embora ela tenha declinado do papel do filme “Notas sobre um Escândalo”, de 2006 (cujo papel acabou ficando com Judi Dench), ela não conseguiu resistir fazer o papel de “A” da peça de Albee (Três Mulheres Altas), uma rígida mulher no final da vida. Atuando com Laurie Metcalf e Alison Pill como versões jovens de “A”, chamadas apenas por “B” e “C”. Glenda tem um grande desempenho, merecedor de um Tony.

Ela, que é há muito tempo divorciada e tem apenas um filho, um colunista de jornal, deu uma entrevista dentro de uma loja de chá em Upper East Side, no dia em que ela recebeu a indicação ao Tony (a quinta vez, sem troféu ganho ainda).

Alison Pill, Glenda Jackson e Laurie Metcalf em "Três Mulheres Altas"
O que achou da peça “Três Mulheres Altas”, quando a leu pela primeira vez?
Tenho vergonha de dizer, mas nunca soube da peça até o momento em que Scott Rudin me enviou uma cópia. Eu pensei, “Essa é uma peça para o rádio!”. Não há praticamente nenhum movimento físico dos atores. Mas Albee era danado de um bom dramaturgo! A simplicidade das palavras que ele escolhe para usar... é uma grande armadilha, na verdade. Porque ele usa muito determinadas palavras. Contudo, ela as coloca em um lugar diferente. Existe uma energia na peça, mas você tem que vasculhar por ela. E eu acho que encontramos essa energia em nossa produção. Geralmente você não tem que atuar com outras atrizes. Certamente não nas peças contemporâneas. Geralmente, há apenas um único bom papel de uma mulher. Ter a oportunidade de trabalhar com atrizes desse calibre foi algo muito grande para mim. Já havia visto o trabalho de Laurie na TV e ela pode fazer qualquer tipo de coisa. Não conhecia a Alison, mas acho que está maravilhosa na peça. A parte dela está nas entrelinhas e ela acerta em cheio.

Você teve problemas para viver a personagem?
Uma das minhas regras de atuação é que você não pode julgar a personagem que você vai fazer. Você tem que ver o mundo através dos olhos dela. E ela viu o mundo dela muito nitidamente. (Risadas).

John Lithgow à esq., Glenda e Cynthia em Virginia Woolf
Você participou em 1989 de uma produção de “Quem tem medo de Virginia Woolf?” de Edward Albee, que foi dirigida pelo próprio autor. Como foi trabalhar com ele?
Ele era muito fechado. Acho que nunca o vi sorrindo.

Quando você retornou a atuar, depois de décadas fora do palco e das telas, em vez de voltar tranquilamente, você logo de cara escolheu Rei Lear.
A direção do teatro Old Vic entrou em contato comigo, querendo que eu fizesse algo. Eu não gostei da peça que eles queriam que eu fizesse. Eu disse que eu queria fazer Rei Lear e eles disseram que tudo bem. O que achei interessante foi de que ninguém levantou a questão de uma mulher fazendo o papel de um homem. Ninguém mesmo. Uma das coisas que eu descobri ser muito útil é de quanto mais velha a gente fica, mais as barreiras de gênero começam a cair.

Você tem uma carreira de filmes muito variada. São poucas as atrizes que tiveram colaborações de sucesso tanto com o diretor Ken Russell (“Mulheres Apaixonadas”  e “Delírio de Amor”) e o ator Walter Matthau (“Um Viúvo Trapalhão” e “O Espião Trapalhão”)
Eu fico surpresa que você tenha se surpreendido. Eles podem ser externamente diferentes, mas não eram na verdade. Porque os dois tinham um terceiro olho. Ken conseguia criar um clima em que você podia trabalhar de verdade. Ele era uma pessoa completamente ligada no ser humano. Walter era exatamente o mesmo. Ele era engraçado, mas ele era muito sério sobre as coisas que importavam para ele. Gostei muito de trabalhar com os dois!

Você se depara com suas contemporâneas, como Judi Dench e Maggie Smith e sente inveja por terem ganho dinheiro com James Bond e Harry Potter?
Não. Me ofereceram o papel de “M”, que Judi Dench fez nos filmes de Bond.

E por que não aceitou fazer o papel?
Por que seria um papel muito chato.

Como entrou na política?
Eu sempre apoiei o Partido Trabalhista, desde metade dos anos 70. Eu fiz campanha pelos candidatos. Eu ia a jantares para auferir fundos de campanha, escrevia cartas pedindo apoio, esse tipo de coisa. Inesperadamente em um dia, a seccional do Partido em Hampstead me telefonou e disse, “Estamos tendo problema para selecionar um bom nome, você poderia aceitar colocar seu nome dentre os possíveis candidatos?” E qualquer coisa que eu pudesse fazer e que fosse legal para tirar o governo de Margaret Thatcher do poder, eu estava preparada para fazer. Meu país estava sendo destruído! Toda entrada de qualquer lojinha era um quarto de dormir, banheiro e sala de estar para algum desabrigado. E em muitos casos, eles eram também mentalmente doentes. Tudo havia se despedaçado diante de nossos olhos. O que eu havia aprendido que fossem vícios, ela dizia que eram virtudes, como a ganância. Ela dizia que não havia tal coisa de uma sociedade.

Você teve dificuldade para as pessoas levarem você a sério. Uma estrela de cinema sem experiência política?
Eu achei que teria, mas você sabe, eu nunca fui uma grande estrela, de certa forma. Com certeza, não no meu município.

Mas você já havia ganhado duas estatuetas do Oscar …
Mas isso não faz de você uma estrela. Uma estrela é alguém que as pessoas vão ver por causa de quem são. Ninguém ia me ver por que quem eu era. Eles iam para me ver atuar. Não é o mesmo.

Você cresceu em um lar com ideias de esquerda?
Não exatamente. Meus pais votavam nos candidatos e partidos que eles achavam que estavam fazendo o bem para eles. Minha avó votava pelos Conservadores sempre. Eu nunca discuti política com ela! (Risos).

Há algo que eu possa te persuadir a se tornar uma cidadã americana e se candidatar para o Congresso?
Acho que não.

Você trabalhou com Cynthia Nixon na produção de 1989 de Virginia Woolf. Tem acompanhado a campanha dela para governador?
A Cynthia veio me ver na peça. Ela não parece um dia mais velha do que quando eu a vi da última vez. Disse a ela: “Se precisar de mim para bater de casa em casa, me avise. Eu tenho as segundas livres.” Eu espero que ela vá bem. Muito interessante a candidatura dela.
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O que acha do movimento #Meeto em Hollywood e além?
Quando tudo começou, quero dizer esse negócio com o Harvey Weinstein, eu pensei comigo mesma, “Duas mulheres morrem no meu país toda semana, nas mãos de seus parceiros. Isso nunca foi notícia de primeira página ou tenha causado um movimento.” A ideia que esse tipo de comportamento seja exclusivo para certas profissões ou pessoas com grande quantidade de dinheiro é uma grande bobagem. Isso é endêmico, é constante.

Agora que se reestabeleceu, tem algum desejo em fazer filmes ou TV? Com certeza é menos extenuante do que oito shows por semana.
Oh, pelo amor de Deus! Não estamos trabalhando em uma mina de carvão! Faz parte, você faz a peça oito vezes por semana! Meu pior dia é o meu dia de folga. Eu gostaria de fazer algo que tivesse um bom roteiro. Nada me atraiu até agora.

Você deve receber muitas ofertas, Vivemos, afinal, em uma era em que as mulheres mais velhas estão experimentando uma renascença, quando se refere a atuar.
Ah, que isso! Não, elas não estão. Me desculpe, mas elas não estão. Quero dizer, por que é que os dramaturgos contemporâneos não acham as mulheres interessantes? Isso nunca mudou desde que eu coloquei meus pés no palco pela primeira vez.

As duas Rainhas Elizabeth, a oficial e a Rainha Elizabeth I no cinema (Glenda Jackson)


Fonte : Hollywood Reporter



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